Trabalho Final
UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
Distante da casa do
coringa: Uma analise do texto terrenos
Arthur
Travasssos de Arruda Nóbrega
Sumário
1 Apresentação
2 Distanciamento
2.1 Distanciamento
utilizado na cena 06
2.2 Distanciamento
no restante da peça
3 Coringamento
4 Conclusão
5 Bibliografia
Apresentação
Meu
objetivo nesse trabalho é analisar o texto TERRENOS1
da
Cia.
Teatro Documentário2.
Tendo
como base o conhecimento adquirido em sala tentarei trazer um texto
didático e não cansativo. Tendo como ferramentas gráficos, tabelas
e imagens esse trabalho vai trazer uma breve analise do
distanciamento desenvolvido por Brecht e o coringamento elaborado por
Boal.
Com
foco na peça e nas formas utilizadas de fazer cada coisa esse texto
promete trazer muito conteúdo para ser analisado.
Distanciamento
Nesse
texto podemos observar a utilização do método do estranhamento
desenvolvido por Eugen
Bertholt Friedrich
Brecht3,
esse
procedimento cênico é conhecido por não permitir que o publico
crie laços afetivos com os personagens em cena e que mantenham
durante o
espetáculo
um olhar realista, que se afaste da ficção criada no palco. Como
Brecht disse em Estudos
sobre
teatro4
“O
objetivo dessas tentativas consistia em se efetuar a representação
de tal modo que fosse impossível ao espectador meter-se na pele das
personagens da peça. A aceitação ou a recusa das palavras ou das
ações das personagens devia efetuar-se no domínio dó consciente
do espectador, e não, como até esse momento, no domínio do seu
subconsciente.”
Sendo
assim o método é bastante utilizado na peça em questão por pedir
a
utilização dessa
técnica. A
peça em si traz um tema de denúncia e a plateia por sua vez tem que
ter um olha mais analítico
da
situação
sem se apegar a nenhum lado. Deste modo o
docudrama5
em si traz documentos reais e falas verídicas
que os próprios atores tiveram com a entrevistada, utilizam
ainda
de trechos de gravações com a mesma contando fatos vivenciados.
Sabendo
que brecht tem como objetivo criar essa barreira afetiva com os
espectadores o texto traz muitos outros elementos de distanciamento e
formas de brincar com esses movimentos, na cena seis por exemplo que
mostra uma parte com pouca interpretação
e mais leitura de documentos.
Entretanto no restante da peça podemos observar outros
tipos de estranhamento.
Contudo
o distanciamento brechtiniano é em alguns momentos dissolvido em uma
fala
que pede personagem e distancia,
ficando difícil
assim a identificação
de quem é o porta-voz daquele
bifão,
como na cena dois, pagina cinco:
“Mãe,
manhê! Põe a gente no chão! Você está me segurando só como
Cidinha. Mãe, com uma mão só, na foto. Ai como Anite eu estou de
pé do seu lado, como Dirce estou sentada na frente da Anita, a
Cidinha também, estou na frente de pé com o papai, e como Afonso
estou na frente do papai e do lado da nena. Do lado da Nena, mãe! Só
que está todo mundo bem sério aqui na foto. Isso! Está perfeito.
Clique!”
Esse
procedimento é tido como muitos uma forma de fazer do teatro um
canto de conhecimento político
e social.
Trazendo muitas vezes fatos que acontecem com a sociedade atual
usando de personagens, de falas com impacto sobre a narrativa ou de
acontecimentos já vividos por alguém que a história cita. Abaixo
tabela com falas e meios para atingir o público-alvo:
FALAS
|
MEIOS
|
“A
Francisca me contou que na adolescência, A Anita e o Afonso foram
trabalhar com o João, na fábrica”- Crianças
|
Personagem
|
“Existem
pessoas que calam com o grito; e outras, com afago... ”- Patrão
|
Falas de impacto sobre a narrativa
|
“Maíra,
a prostituta que conheci na estação da Luz, não sai de casa sem
passar batom. Ela me contou que veio para São Paulo, por que
soube de uma proposta de trabalho através do irmão. Maíra”
–Francisca
|
História já vivida
|
2.1
Distanciamento na cena 06
Entrando
na cena seis temos o distanciamento total dos personagens, para um
melhor entendimento de toda a historia, com a utilização de
documentos “Certidão
de óbito do João. Declarante: Vicente Lopes”- Crianças
esse ato
se da de um modo mais elaborado com comprovantes. A
utilização desses documentos em cena leva veracidade e embasamento
para o palco, fazendo da denúncia o foco principal da sexta parte.
“Crianças:
Causa da morte: infarto do miocárdio, doença cardiopatia
hipertensiva.
João:
Francisca sempre disse que João era muito saudável
Crianças:
Residente onde faleceu
Francisca:
O joão não morreu em casa
Crianças:
Endereço do falecimento: Rua Costa Aguiar, numero 875
Francisca:
Esse não é o endereço onde francisca disse que viveu com João.
Esse é o endereço da fábrica
Crianças:
Troca para panfleto da Rádios Pontet. Esse é o anuncio da
fábrica, de 20 anos depois. Endereço: Rua Costa Aguiar”
Ainda
tendo como foco essa cena podemos analisar o uso dos atores em
paralelo com seus personagens, usando de características físicas
reais para a assemelhação com seu personagem, tendo como maior
objetivo transformar aqueles seres “fictícios em pessoas reais.
“Patrão:
É impressionante a semelhança física dele com João.
Francisca:
Demais.
Crianças:
É mesmo.
João:
Imagina.
Francisca:
As orelhas grandes.
João:
Minhas entradas são maiores do que as dele.
Crianças:
O cabelo é escuro, igualzinho.
Francisca:
O rosto, o formato do rosto…
João:
Eu tenho 28. O João tinha quarenta e poucos. Os braços mais curtos
que o meu.”
(Imagem 1)Momento
onde usam de uma foto antiga de João para comparar com o Ator Márcio
Rossi, cujo interpreta o falecido.
Características
|
Personagens
e Atores
|
“Esse
cabelinho batidinho, curtinho.”
|
Francisca/Carolina
Angrisani
|
“Tem uma
alma infantil, uma agilidade”
|
Crianças/Natália
Lemos
|
“Se
imaginar o patrão, o patrão é um cara alto”
|
Patrão/Gustavo
Curado
|
Entretanto
essas características não são as únicas, o sexto ato vem com uma
narrativa distanciada, porem trazendo à utilização da atuação
voltada
para uma desconstrução
do distanciamento, fazendo assim das falas distanciadas as falas dos
personagens que representam, ou seja, os atores usam de um jogo de
falas verídicas e não para um mostrar um contraste entre ficção e
realidade.
““Patão:
É, Francisca, eu não sei nem como dizer, foi tudo muito rápido...
O João caiu na Fábrica, foi uma morte santa. Você não se preocupe
com nada, o patrão está tomando conta de tudo.
João:
Talvez vocês imaginem que tenha sido assim, mas não. O Vicente deu
a notícia de maneira seca, direta.
Patrão:
Volta.
Francisca:
O que aconteceu ao meu marido?
Patrão:
O joão morreu.
Francisca:
é mentira, é 1° de abril ”
Fechando
a cena temos falas
que trazem um contexto histórico para o ato, dando uma ideia de
tempo e de vivência essas falas tem como objetivo o enriquecimento
da passagem de tempo do docudrama e finalização da historia
contada.
“Francisca:
Em seu 1,53m, a Francisca tem o seu ventre de mãe operária,
operária-mãe. Tem um peito e um coração dentro dele. Tem seus
braços mais curtos que os meus. Francisca percorreu mais ou menos
300 quilômetros do interior à capital. Depois disso, tornou-se
viúva, operária de uma fabrica de linhas de costuras, reencontrou o
algodão. Casou as filhas e o filho, teve mais de 25 netos, 10
bisnetos e 3 tataranetos. Francisca nunca saiu desse estado.
Patrão
cobre Francisca com manto-certidão-de-óbito
Patrão:
Francisca não sabia o que estava por vir. Francisca viveu o Brasil
Novo, o plano nacional contra o Imperialismo, e a Ditadura militar.
Assistiu pela televisão a queda do muro de Berlim, e ouviu a direita
comemorar ao som de Pink Floyd. Depois, perdeu a poupança no plano
Collor e, em seguida, viveu a felicidade dos créditos. Está
inserida na chamada singularidade da pós-modernidade. Observou de
longe as manifestações de julho de 2013 e viu a Copa do Mundo no
Brasil, em 2014. Nunca sozinha e em silêncio. Mesmo sem saber
exatamente sobre seu paradeiro, a figura do Patrão e o som da prensa
sempre lhe fizeram companhia.”
(Imagem 2)Francisca
coberta com o manto-certidão-de-óbito
2.2
distanciamento no restante da peça
Nas
outras cenas do texto podemos observar várias funções do
distanciamento, como musicas, partes narradas, informações dadas
para o entendimento da história, contexto histórico e comparação.
Abaixo podemos observar uma tabela com alguns exemplos de falas e
suas formas perante o texto.
FALAS
|
FUNÇÕES
|
“A
família chegou em São Paulo, na Estação da Luz, e o tio
Vicente já estava esperando com um táxi”- Patrão
|
Narração
|
“A
Francisca não me disse se gostaria de ter trabalhado menos para
ficar mais tempo com as crianças”- Francisca
|
Informar
|
“Deixe-me
ir/Preciso andar/Vou por aí a procurar/Rir pra não chorar”-
João
|
Música
|
“Minhas
mão são limpas, macias e não possuem calos. Ao contrário das
mãos de Gilberto..”- Patrão
|
Comparação
|
“João
nunca ouviu “Preciso me encontrar” na voz de Cartola. João
não viveu o Brasil Novo… Nem assistiu à Copa do mundo no
Brasil, em 2014. João não viu e não verá essa encenação” -
Francisca
|
Contexto
Histórico
|
O
distanciamento narrativo se da em vários momentos por muitas falas
explicativas do que está se passando em cena. Tendo como função
explicativa esse tipo de distanciamento é utilizado pelos atores um
total de dezessete vezes ao decorrer da peça. Tendo sua maior
aparição do fim da parte três inicio da quarta essa ferramenta
narra a chegada da família em São Paulo.
“João:
Eu costumo ver o dia amanhecendo ou por que acordei cedo ou por que
eu tive insônia. Às vezes vezes eu ouço o vento rasgando a janela,
ou a chave trancando a porta. Eu saio de casa, eu passo pela a rua e
ouço conversas pela metade, ouço pessoas com passos acelerados.
Difícil mesmo é escutar meu próprio passo. Será que o João em
sua vida teve a chance de ouvir seus passos? O som da terra ao pisar
no chão?Possivelmente ele ouviu o convite de Vicente, pensou e
partiu. Talvez não tão rápido, como foi apresentado, podem ter
tido algumas diferenças. Com certeza ele percebeu as crianças
arrumando as coisas junto com Francisca, ou as brincadeiras, afinal
de contas, eram crianças. A casa talvez fosse assim, quase
silenciosa. E no silêncio, ele pode ter escutado.”
A
fala para informação também se fez bem presente no docudrama, com
o foco em informações
extras para o enriquecimento da peça esse mecanismo foi utilizado 31
vezes ao
decorrer da história. Com a utilização de documentos o ato 6 tem
em sua base o distanciamento informativo, como conclusão da trama e
resolução de pontas soltas.
“Crianças:
A Cidinha, que hoje tem 68 anos, contou para a gente que quando as
crianças receberam a notícia do falecimento do pai, foi um grande
tumulto. Por achar essa imagem muito dramática, eu optei por não
representar.”
A
musicalidade na peça se
da
por distanciamentos pontuais
e representativos, para ilustração da morte de João, com a chegada
do tio das Crianças e com a insinuação de que Francisca perdeu uma
criança. Essa musicalidade traz para
o docudrama uma
outra atmosfera com o poder de insinuação.
“Crianças:
Pum pá, pum-pá, Pum pá, pum-pá
Francisca:
Pode entrar
Patrão:
O futuro aqui chegou
João:
Com ar de doutor chegou meu cunhado
ele
trouxe um convite inusitado
Patrão:
Bora pra São Paulo terra da garoa
Francisca:
É isso ai, criançada, vamos ter uma vida boa
Crianças:
É João, trabalhar pra caralho, e ganhar
Todos:
Uma merda de salário”
(Imagem 3)Parte cantada, todos em cena.
Abaixo
temos
um gráfico para facilitar à
visualização
da aparição do distanciamento nas cenas e como cada um foi
utilizado, podemos observar que existe predominância da informação
e da narração:
(Gráfico 1)
Coringamento
A
técnica do coringamento6
foi desenvolvida por Augusto Boal7
e é responsável por dá a um ator mais de um personagem para a
interpretação, utilizando de figurino ou apenas do aviso para a
troca de papel o ator pode transitar entre esses personagens. E como
pude observar no docudrama sabemos que o personagem Crianças e
Patrão praticam desse coringamento.
“Crianças:
Plantação. Grande propriedade agrícola. Criança, pequeno ser
humano. Pequeno latifúndio. Algodão. A Cidinha no cabelo do pai, o
Afonso pega no passarinho, a Dirce na árvore, a Nena palhaça, a
Anita no rio. Eu sou a Anita, o Afonso, a Nena, a Dirce e a Cidinha.
Nós somos cinco, e não queríamos ter esquecido a boneca.”
Diferente
da metodologia do estranhamento de Brecht o coringar tem um trabalho
direto com os personagens e com a historia que contam. Tanto que na
cena três, página 8, tem um dialogo apenas com a personagem Dirce e
na mesma cena o personagem Patrão esta de Vicente, irmão de
Francisca.
(Imagens 4, 5, 6, 7 e 8)
Como
podemos observar o personagem Crianças teve 5 jeitos diferentes de
abraçar, isso mostra mais de uma personalidades diferentes e corpos
diferentes. Isso é o coringamento, a capacidade de
trabalhar
com vários personagens com o mesmo ator. A parte ruim desse
procedimento é a falta do movimento no palco, uma cena só é
movimentada
com a entrada e saída de atores no palco, deixando eles no palco
porém com personalidades diferentes é retirar esse movimento e
substituir por ações que por consequência trazem um ritmo
acelerado, por causa da troca de figurino que tem que ser rápido
estando em cena.
Outro
personagem que também usa dessa ferramenta é o Patrão,
interpretando o tio que convence a família a ir para São Paulo,
esse personagem não tem trocas simultâneas, porém sua
característica foi o aviso da troca de personagem, diferente das
Crianças que tem sua troca em cena o ator espera sair de foco para
tocar de figurino.
Patrão:
Agora eu serei o tio Vicente, Irmão de Francisca, cunhado de João,
tio das cinco crianças e um excelente funcionário.”
Patrão
|
Tio Vicente
|
(Imagem 9) (Imagem 10)
Só
de observar o figurino já podemos identificar diferenças, porém
não é só as roupas que diferem pessoas e sim suas personalidades,
o personagem Patrão traz uma energia mais séria e pesada para o
palco, levando em conta todo o enredo é de se esperar esse tipo de
personalidade caricata de um patão. Enquanto Vicente é apenas mais
alguém tentando crescer no estado Paulista. Abaixo um gráfico com o
numero de trocas efetuadas no docudrama:
(Gráfico 2)
Com
a ilustração do gráfico podemos identificar que o personagem
Crianças se da em constante
troca de personalidades, diferente do Patrão que chega momentos que
ele não muda. Contudo mesmo sem mudanças de um personagem podemos
ver
que o ritmo se da mais rápido nas partes um e dois, fazendo do
inicio da peça algo ágil.
Conclusão
Pude
concluir com essa analise que o texto TERRENOS tem duas
características bem marcantes, uma sendo o distanciamento de Brecht,
responsável por diferenciar ficção da realidade o estranhamento
cria uma barreira contra e empatia para que o publico não se apegue
aquilo que se passa no palco.
Contudo
o coringamento desenvolvido por Boal traz para o palco algo ficcional
e ilustrativo, para prender a atenção dos espectadores. Essa
técnica foi utilizada mais como economia de tempo, a entrada e saída
de atores gera movimento porém o ritmo diminuí em cena. Tendo um
personagem fazendo vários traz aquela ideia de que não esta
perdendo tempo com trocas desnecessárias.
Bibliografia
BRECHT, Bertolt. Estudos sobre o teatro. Ed. Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1964.
1 Texto
escrito pela Cia. Teatro Documentário, conta a historia de uma
família que foi morar em São Paulo, texto completo se encontra em
anexo.
2 Cia.
Teatro Documentário é uma companhia de teatro de São Paulo, com
foco em peças de caráter documental, para mais informações desse
grupo segue link: http://ciateatrodocumentario.com.br/
3 Dramaturgo
alemão do seculo XX, desenvolveu a técnica do estranhamento e
começou a disseminar uma vertente do teatro hoje e dia conhecida
como teatro documentário.
4 Estudos
sobre teatro é um livro escrito por Brecht e traduzido por Fiama
Pais Brandão, nesse livro Brecht faz varis analises sobres métodos
de fazer teatro, contendo trechos sobre o estranhamento.
5 Docudrama
é o nome dado as dramaturgias de caráter documentário.
6 Papel
de vários personagens com apenas um ator fazendo eles.
7 Dramaturgo
brasileiro, deu origem ao teatro do oprimido
e seu auge se deu no seculo XX
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